A sessão promovida pelo Bloco de Esquerda em Leiria funcionou como um
parlamento aberto onde Francisco Louçã expôs a sua intervenção e depois
respondeu a várias interpelações do público que colocou questões sobre a
utilidade e as razões da moção de censura, mas também sobre a crise e o
FMI e sobre as mobilizações sociais e sindicais.
Louçã começou por referir a “extraordinária” revolução árabe,
sublinhando as suas origens sociais – a “revolta dos jovens
desempregados” [referindo-se à Tunísia e ao Egipto] – e denunciando a
hipocrisia dos países ocidentais, nomeadamente os principais da União
Europeia (UE), que ajudaram a sustentar os regimes autoritários
dando-lhes protecção política. Lembrando que os regimes tunisino e
egípcio pertenciam à Internacional Socialista, da qual também o partido
de José Sócrates faz parte, afirmou que a protecção dada a estes países
se baseava numa garantia de controlo do petróleo e instrumentalização
política dos países. “É por isto que a revolução árabe é tão importante,
porque denuncia uma Europa que se preocupa mais com a indústria
petrolífera do que com a liberdade dos povos”, disse Louçã.
Num segundo momento, Francisco Louçã falou concretamente sobre a moção
de censura dizendo que esta é a terceira moção apresentada pelo Bloco e
também a mais justificada de todas. Esta terceira moção, afirma Louçã, é
contra “a economia cruel que afunda o país”, e responde “pelos 700 mil
desempregados, pelos 2 milhões de precários perseguidos por esta
economia, por um país que lhes retira vida”.“Nenhuma outra moção tinha
sido atacada deste modo”, lembrou Louçã afirmando que “aqueles que
arruínam o país querem que tudo fique na mesma”.
Já o governo, disse Louçã, “tem uma obsessão ideológica: tornar o
despedimento mais barato e colocar cada trabalhador a pagar o seu
próprio despedimento ou o do colega do lado, ou seja, resolver os
problemas da economia portuguesa favorecendo o desemprego e baixando os
salários”. Este é um modelo de inspiração liberal, sublinhou, “é o
modelo da Thatcher e do Reagan, que só origina mais desemprego”.
O coordenador do Bloco de Esquerda considera que a resposta da direita à
moção de censura do Bloco é para ajudar o governo na política do
desemprego. “A direita quer agarrar o governo para este fazer o pior e
desagregar a economia”, sustentou, referindo depois ironicamente a frase
de Passos Coelho – “ainda não temos fome para ir ao pote”. “O pote
somos nós, são os impostos, é economia, é o estado”, disse.
Louçã acentuou três factos que confirmam a necessidade da moção de
censura e demonstram a “elevada degradação social” em que o país se
encontra: as recentes estatísticas do desemprego; os resultados dos
principais bancos em Portugal que demonstraram que estes pagaram uns
juros irrisórios sobre 1500 milhões de euros de lucros e denunciou a
“gigantesca tramóia do discurso sobre a distribuição dos sacrifícios“; o
“entusiasmo” da direita com as propostas laborais do governo: o CDS
quer prolongar os contratos a prazo até 6 anos, o PSD propõe que a
Segurança Social – “que é dinheiro de todos os trabalhadores”, lembrou o
dirigente bloquista – pague uma parte do salário para que o valor do
trabalho seja menor, permitindo aos patrões contratar pagando abaixo do
salário mínimo.
“Nós não estamos condenados”
O deputado acusa o bloco central, a alternância entre PS e PSD, de ser
responsável por esta economia do medo e do desespero: “um como o outro
são promotores das políticas do desemprego e entusiasmam-se com as
políticas de privatizações”.
É por isto, diz, que a “ a esquerda precisa de ter a capacidade de
apresentar uma alternativa”. “Nós não estamos condenados”, afirma
Francisco Louçã, e acrescenta que “nós precisamos da força de uma
alternativa que ponha na ordem o sistema financeiro, cobre os impostos
justos a todos, que crie a sustentação para os serviços públicos e
Segurança Social e que nessa base redistribua na população aquilo que é
de todos”.
O Bloco quer democracia e justiça na economia e esse é o sentido da
moção de censura, reiterou Louçã, afirmando que “não podemos cruzar os
braços, nem ficar à espera que aconteça”.
Nos próximos meses corre-se o risco da degradação da economia
portuguesa, advertiu, referindo-se à especulação financeira mas também
aos planos da UE. “A União Europeia é pior do que o FMI quando cobra
juros mais altos à Irlanda e à Grécia do que ao próprio FMI”, disse.
A UE e o FMI têm a mesma receita e só conhecem uma palavra: salário,
diz Louçã acusando-os de procurarem fazer os ajustamentos sempre a
partir do valor do trabalho, seja a partir do aumento do custo dos
transportes, do aumento da saúde, do IVA, do congelamento das pensões,
“é sempre ir buscar ao salário”.

Fou uma grande sessão!
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