Depois
das eleições, seria estranho que não voltássemos a elas, para
análise dos resultados. O óbvio é registar que a vitória de
Cavaco foi a mais fraca de sempre, num processo de reeleição de um
candidato que já era presidente, que Manuel Alegre perdeu no
objectivo de forçar uma segunda volta, e que houve muitos votos de
“protesto” face às candidaturas apoiadas pelos partidos.
Alguns
desses votos de protesto foram para um número significativo de votos
brancos e nulos (quase 6%, 280.000 votos). Não sei se as pessoas que
o fizeram estavam conscientes de que o seu voto, expresso dessa
forma, acabariam por contribuir para a vitória de Cavaco na 1ª
volta. Mas, ao contrário do que acontece nas legislativas, o facto é
que os votos brancos ou nulos não contam para apurar se determinado
candidato tem ou não 50% dos votos mais um, para obrigar a uma 2ª
volta. Foi o que aconteceu desta vez. Bastaria que esses votos
brancos (4,26%) tivessem contado para o apuramento eleitoral para
obrigar Cavaco a uma 2ª volta e, provavelmente, a perder.
Assim,
foi Alegre que perdeu. É claro que as derrotas são sempre por culpa
própria. Ao contrário de outras candidaturas, que só falaram nos
seus próprios resultados para dizer que “ganharam” – Fernando
Nobre foi o caso mais caricato, mas Francisco Lopes acabou por dizer
o mesmo -, desvalorizando o facto de Cavaco ter ganho num país que
votou maioritariamente à esquerda nas últimas legislativas, Manuel
Alegre assumiu “pessoalmente” a derrota, afastando expressamente
a responsabilidade dos partidos que o apoiaram.
Essa
foi, mais uma vez, uma demonstração inequívoca dos valores éticos
que nortearam Alegre e a sua candidatura. Mas para nós, BE, a
responsabilidade maior não foi de Manuel Alegre.
É
certo que o candidato fez uma campanha a duas velocidades: uma
primeira, pré-eleitoral, em que foi visível um registo contido no
ataque às políticas de austeridade, ao OE2011 e aos PECs e nas
críticas a Cavaco Silva pela sua co-responsabilidade na crise; e uma
segunda, muito mais acelerada e dinâmica, em que claramente Manuel
Alegre surgiu com o candidato de referência à esquerda no ataque à
direita contra a desejada entrada do FMI, contra a liberalização
dos despedimentos e em defesa dos serviços públicos, do Estado
Social e dos direitos democráticos. Aí, Alegre mobilizou, empolgou
e empolgou-se.
Mas
Alegre teve sempre pela frente um partido socialista que, em teoria,
o apoiava mas que, desde sempre, tentou sempre puxar para trás e
desvalorizar a sua candidatura. O próprio coordenador do PS no
distrito o confessou publicamente, no dia seguinte às eleições, ao
assumir que “a responsabilidade da derrota de Manuel Alegre” foi
do PS…
Manuel
Alegre fez tudo para recuperar a identidade da esquerda no combate
política contra a direita e o seu candidato único. Especialmente
durante a campanha, Manuel Alegre ao colocar na agenda política a
luta contra a entrada do FMI, contra o agravamento da crise através
de medidas que a direita há muito vem defendendo, tais como a
liberalização dos despedimentos e a privatização dos serviços
públicos, ao rejeitar uma Europa hegemonizada pelo neo-liberalismo
da Srª Merkel e o BCE e ao assumir o compromisso de veto político
contra todas leis que pusessem em causa o Estado Social e os direitos
democráticos, deixou bem vincado o sentido do voto na sua
candidatura como a verdadeira alternativa de esquerda para combater
Cavaco Silva e a direita nestas eleições.
Manuel
Alegre não ganhou essa batalha, mas caiu de pé. O seu combate
ajudou a reforçar as bases da construção de uma esquerda ampla
socialista, anti-neoliberal e anti-capitalista, que o Bloco, junto
com todos os socialistas que se encontraram nesta candidatura, vão
continuar a afirmar nas lutas futuras que aí estão à nossa frente.
03-02-11
Heitor
de Sousa
Sem comentários:
Enviar um comentário